
Passou a convenção. Lucas Ribeiro foi oficialmente apresentado para a disputa pelo Governo da Paraíba, mas uma das principais peças de sua chapa continua faltando: o candidato a vice-governador.
E agora não existe mais pressa.
Se antes havia expectativa de que o mistério fosse resolvido durante a convenção, o grupo governista decidiu esticar a corda e poderá levar a definição praticamente até o limite do prazo para registro da chapa.
Nesse intervalo, um nome que parecia ter sido retirado definitivamente do tabuleiro voltou a circular com força nos bastidores: Adriano Galdino.
E talvez seja exatamente por isso que essa escolha esteja sendo tão difícil.
Entre os nomes que passaram pela mesa do governo, Adriano reúne uma característica que poucos possuem: densidade política própria.
Não seria um vice meramente geográfico, protocolar ou escolhido para preencher espaço na fotografia da chapa. Adriano entraria carregando votos, bases eleitorais, influência partidária, articulação e uma enorme capacidade de conversar dentro e fora do campo governista.
Basta observar a Assembleia Legislativa.
Galdino conseguiu algo cada vez mais raro na política paraibana: construir uma relação que atravessa as fronteiras entre situação e oposição. Em 2023, foi eleito presidente da Casa pelos 36 deputados estaduais. Depois, voltou a ser escolhido por unanimidade para comandar o Legislativo no biênio 2025/2026.
Na prática, foi uma eleição por W.O.
Não havia adversário.
Esse dado diz muito mais sobre Adriano Galdino do que qualquer discurso.
Ao longo dos últimos anos, enquanto comandou a Assembleia, Adriano conseguiu preservar a independência institucional da Casa sem transformar o Legislativo numa trincheira permanente contra o Executivo. João Azevêdo atravessou seu governo sem grandes terremotos produzidos pela Assembleia, e Lucas Ribeiro manteve até aqui a mesma estabilidade.
Isso exige articulação.
E articulação é justamente uma das principais moedas de uma eleição.

O peso do Republicanos
Existe ainda outro componente.
Adriano não chega sozinho.
Ele pertence ao Republicanos, partido que se transformou numa das principais forças políticas da Paraíba e que tem no presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, seu maior expoente.
Dentro desse grupo, Adriano é uma das figuras de maior capacidade de articulação estadual.
Colocá-lo como vice significaria não apenas agregar Galdino à chapa. Significaria aumentar ainda mais o comprometimento político do Republicanos com a eleição de Lucas Ribeiro.
E esse detalhe pode ganhar importância sobretudo numa eventual disputa de segundo turno.
Vice não serve apenas para compor chapa.
Vice também serve para amarrar alianças.
Com Adriano na fotografia, o Republicanos teria um interesse ainda mais direto no resultado da eleição. A vitória de Lucas seria também a vitória de um dos principais líderes do partido.
É exatamente por isso que, numa leitura eleitoral, Adriano provavelmente seria uma das escolhas mais incômodas para os adversários de Lucas.
Cícero Lucena e Efraim Filho certamente prefeririam enfrentar uma chapa governista com um vice de menor capacidade eleitoral e articulação do que uma chapa que acrescentasse Adriano Galdino.
Não porque vice ganhe eleição sozinho.
Mas porque alguns vices acrescentam muito mais do que um nome na urna.

Mas existe uma pedra chamada Aguinaldo
Se politicamente Adriano possui tantos argumentos favoráveis, por que ainda não foi anunciado?
A resposta pode estar no passado recente.
Adriano Galdino foi um dos principais contestadores do processo que levou Lucas Ribeiro a se transformar no candidato governista à sucessão estadual.
Não concordou com a maneira como a construção foi feita, sustentou durante meses sua própria pré-candidatura ao Governo e cobrou espaço para discutir a sucessão.
Não foram divergências escondidas em salas fechadas.
Foram públicas.
E no centro de boa parte dessas rusgas apareceu justamente Aguinaldo Ribeiro, deputado federal, tio de Lucas e principal articulador político da família Ribeiro.
Adriano e Aguinaldo acumularam divergências e declarações públicas ao longo desse processo.
Mais recentemente surgiu outro obstáculo. Galdino afirmou que ficou fora das negociações para a vice após discordar de uma proposta envolvendo suas bases eleitorais. Segundo ele, aceitar a condição poderia prejudicar companheiros do Republicanos que haviam ingressado no partido confiando em sua palavra.
Portanto, existe política no caminho.
Existe passado.
Existe cicatriz.
E existe uma enorme pergunta: Adriano e os Ribeiro conseguem colocar tudo isso debaixo do tapete em nome de um projeto eleitoral maior?

Lula pode ser a ponte
É aqui que surge talvez o elemento mais interessante dessa história.
Adriano Galdino não descobriu Lula em 2026.
Sua aproximação com o presidente vem de muito antes da eleição estadual entrar na fase decisiva.
Quando ainda brigava para ser candidato ao Governo, Adriano defendia publicamente que o nome escolhido pelo grupo governista deveria estar alinhado com Lula. Em agosto de 2025, chegou a admitir que poderia deixar o Republicanos e ingressar no PT caso recebesse pessoalmente do presidente o convite para disputar o Governo.
Ou seja: enquanto muita gente agora procura uma fotografia com Lula, Adriano já defendia essa aliança quando ela ainda provocava desconforto dentro de setores da própria base.
E isso pode pesar.
Lucas Ribeiro precisa consolidar perante o eleitorado lulista a ideia de que seu palanque é, de fato, o palanque do presidente na Paraíba.
Adriano poderia oferecer uma espécie de certificado político dessa aproximação.
Não seria um lulista de última hora.
Seria alguém que defendeu Lula quando ainda pretendia ser candidato contra o próprio Lucas.
O vice que muda a eleição
Por tudo isso, Adriano Galdino não pode ser analisado como apenas mais um nome da lista.
Se for escolhido, muda a composição política da chapa.
Traz força eleitoral própria.
Aprofunda a participação do Republicanos.
Acrescenta um articulador experiente.
Ajuda na ponte com o eleitorado lulista.
E, principalmente, transforma a vice em instrumento de poder dentro da campanha.
A pergunta, portanto, talvez nem seja se Adriano reúne condições para ser vice.
Reúne.
A verdadeira pergunta é outra:
os Ribeiro estão dispostos a engolir as divergências do passado para colocar na chapa o aliado que pode ser mais útil no presente?
Até o último dia para o registro, muita coisa ainda pode acontecer.
Mas se Lucas Ribeiro estiver procurando apenas um vice, existem vários nomes.
Agora, se estiver procurando um vice capaz de acrescentar força política, eleitoral e partidária à chapa, Adriano Galdino inevitavelmente continuará sentado à mesa.
E talvez seja exatamente por isso que seu nome incomode tanto do outro lado.
#CaféComMoído é a coluna de política e opinião do jornalista e radalista campinense Márcio Rangel @marciorangelpb 🍵 💣
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